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Livro: A Canticle for Leibowitz; de Walter M. Miller

30/07/2010
por Solari

ACanticleForLeibowitz

Monges guardam conhecimento após guerra nuclear em romance de raro humor e sensibilidade

Walter M. Miller Jr. era um escritor razoavelmente prolífico de histórias curtas para revistas de ficção científica nos anos 50 e em 1960 ele lançou o seu primeiro romance. Sua estreia, A Canticle for Leibowitz venceu o prêmio Hugo em 1960 e é considerado até hoje um dos maiores livros de ficção científica já escritos, sendo reeditado 25 vezes até hoje.

O autor nunca mais escreveu ficção após esse seu clássico (apenas uma continuação póstuma foi lançada baseada nos seus manuscritos) e ele se suicidou em 1996. Ironicamente, a terceira parte de A Canticle for Leibowitz possui uma das mais belas e convincentes argumentações contra o suicídio que já vi.

Após uma guerra na qual o mundo foi tomado por um “dilúvio de fogo”, como nos contam os monges da Ordem de Leibowitz, a humanidade foi levada novamente a um período de barbárie e ignorância e os monastérios se tornaram novamente os depositórios do conhecimento humano.

Miller Jr. usa um humor afiadíssimo paralelamente a uma prosa muito bem escrita para caracterizar as consequências de uma guerra nuclear (o tal dilúvio de fogo) de forma que me fez, perdoem o clichê que se mostra verdadeiro nesta situação, rir e chorar. Os monges da ordem fundada pelo tal Leibowitz do título, um engenheiro que trabalhava na construção de uma estrada no momento da guerra, idolatram a “memorabilia”. Qualquer objeto que encontram, por mais mundano que seja, é tratado com reverência religiosa e interpretado de todas as formas possíveis em busca de sinais. Não deixa de ser engraçado ver os monges buscando sentidos ocultos no que aparentemente não passa de uma lista de supermercado.

Mesmo sendo católico convertido, o escritor não deixa de satirizar a estrutura da Igreja Católica, retratando os monges de uma forma ao mesmo tempo cômica  respeitosa. A Canticle for Leibowitz é dividido em três partes. Fiat Homo (seja feito o homem) se passa cerca de 600 anos após o dilúvio de fogo, Fiat Lux (seja feita a luz) mostra o fim da idade das trevas com os primeiros geradores elétricos e em Fiat Voluntas Tua (seja feita a sua vontade) mostra como o caráter cíclico da história, com a humanidade à beira de outra guerra nuclear.

Trata-se de um dos livros que mais me marcou e pouco posso dizer aqui que faça juz a ele. Li A Canticle for Leibowitz abismado do começo ao fim imaginando como foi possível construir algo assim (o que até hoje só aconteceu quando li Shakespeare, Milton e Cervantes). É uma obra que tive muito prazer de ler e tenho certeza que ainda relerei muitas vezes. Só não gostei muito foi dessa capa da minha edição mais recente, portanto vou incluir essas abaixo.

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gostei: engraçado; profundo; criativo; altamente recomedável

não gostei: uma hora termina

editora: EOS ISBN: 978.0.06.089299.9

links[librarything][amazon][google books][livraria cultura]

Who Killed Captain Alex: O primeiro filme de ação de Uganda

29/07/2010

Você sempre quis ver um filme com um helicóptero que destrói cidades sentando em cima, monstros invisíveis esgarçando tetos, pessoas sendo desarmadas por pedaços de madeira e tudo narrado por um garotinho hiperativo? Rapaz, você está com sorte.

Não costumo colocar dois posts sobre filmes na sequência para manter o foco da Taverna nos livros, mas o trailer de Who Killed Captain Alex me encheu tanto de testosterona que não quero saber de ficar sentado na poltroninha virando pagininha. Feito uma franga!

Trata-se do primeiro filme de ação feito em Uganda, uma produção da boa gente da Ramon Film Products. Segundo o The Observer de Uganda, o filme é sobre um ataque da polícia a um esconderijo de traficantes na capital Kampala. Aparentemente morrem na operação o tal capitão Alex e o irmão do chefão do narcotráfico e ambos os lados saem em busca de vingança. A reportagem também informa que Who Killed Captain Alex teve orçamento total de 8 milhões de xelins ugandenses. Um pouco mais de 6 mil reais pelas minhas contas.

De um lado mais sério, eu achei muito interessante a produção de um filme em um país que não tem tradição cinematográfica nenhuma. O filme pode parecer infantil, mas uma indústria ou tradição artística não nasce madura e os produtores enfatizam que queriam que fosse atuado, escrito, produzido e dirigido por ugandeses (necessidade orçamentária, mas mesmo assim). Num país que sofre de dificuldades que nós não podemos sonhar mesmo no Brasil, eu acho excelente alguém estar criando uns poucos empregos no cinema.

E os produtores já avisaram: a sequência está a caminho.

Via: [geekosystem]

Filme: Assault on Precinct 13; de 1976

27/07/2010
por Solari

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Assault on Precinct 13 foi o primeiro filme no qual John Carpenter mostrou o estilo que se tornaria a sua marca registrada. O longa foi refilmado em 2005 com Ethan Hawke e Laurence Fishburn no elenco e, apesar de ter gostado, o original é imbatível. Carpenter tinha feito apenas a ficção cientifica satírica Dark Star antes de Assault e sua carreira só decolou com Halloween.

O filme acompanha a última noite de um distrito desativado em um violento bairro de gangues de Los Angeles. Mas quando um homem que matou um membro da gangue Street Thunders chega durante a noite, os bandidos fazem uma jura de matar todas as pessoas dentro do distrito.

O interessante de Assault on Precinct 13 é que ele possui influências de filmes de zumbis de Romero e faroestes, como o próprio Carpenter já disse. Os bandidos são desumanizados, verdadeiras máquinas de matar que avançam sem parar, além de demonstrar falta de inteligência a ponto de terem dificuldades em atravessar as persianas.

Os diálogos, escritos também por Carpenter, são excelentes, brincando com clichês do gênero ao mesmo tempo em que fazem com que o espectador simpatize com cada personagem. Seja o policial que volta ao bairro no qual cresceu ou o criminoso carismático que quase sempre responde com “tem um cigarro aí”. E no quesito involuntariamente cômico, temos a secretária que lança olhares sedutores a torto e direito, que arrancou muitas risadas dos comparsas que vieram ver o filme aqui em casa.

E se tratando de John Carpenter, vale dar uma conferida na trilha sonora com o sintetizador patenteado do diretor. Até o comparsa mais novo de vinte e tantos anos que veio assistir saiu da sessão cantarolando.

AssaultOnDistrict13bO policial mais bem-humorado de Los Angeles vai ter uma noite um pouco mais agitada do que o esperado.

AssaultOnDistrict13cPara esses sujeitos, nada é mais divertido do que passear com os amigos mirando com um fuzil as pessoas da rua.

AssaultOnDistrict13aE é claro que aquele condenado ao corredor da morte que matou oito pessoas vai parar também no distrito.

AssaultOnDistrict13d Essa menininha não podia ter achado hora pior para trocar o sorvete por um de outro sabor.

AssaultOnDistrict13f Por algum motivo, os vilões tinham grande dificuldade em enfrentar as persianas.

AssaultOnDistrict13g Nada como relaxar entre as invasões de bandidos sanguinários com um cigarro e uma conversa estimulante com boa companhia. A gente reviu essa cena umas quatro vezes.

AssaultOnDistrict13i O tenente Ethan Bishop foi um dos primeiros heróis negros de ação fora do blacksploitation.

Livro: Celestial Matters; de Richard Garfinkle

22/07/2010

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Uma ficção científica que segue astronomia de Ptolomeu, física e biologia de Aristóteles e também o taoísmo

Celestial Matters é um caso interessante de ficção científica, pois mostra que não apenas os preceitos da ciência moderna podem ser utilizados para se enquadrar no gênero. A história se passa em um mundo no qual o império de Alexandre o Grande jamais caiu e muito em breve se viu numa guerra constante com a China que durou milhares de anos.

A narrativa seque um capitão helênico chamado Aias que é incumbido de viajar até o Sol e roubar um pedaço da chama divina para destruir a capital dos seus adversários, o Reino do Meio. O interessante é que o espaço que a nave Chandra’s Tear –que foi esculpida de um pedaço da Lua- encontra não é aquele que estamos acostumados, mas regidos pela astronomia de Ptolomeu. Ou seja, nada de vácuo e sim diversas esferas celestes girando em estruturas de cristal indestrutível. As naves são movimentadas por canhões que criam túneis de ar mais rarefeito e a tripulação é alimentada por fazendas de geração espontânea de animais; seguindo as teorias aristotélicas.

E esse mundo ricamente construído dobra de tamanho quando o leitor descobre que ele também é regido pela ciência e alquimia taoísta, com linhas de fluxo de chi, transmutações de materiais e curas pela acupuntura.

Os melhores momentos são justamente quando há um embate entre essas duas formas díspares de ver o mundo. A ciência grega é baseada em formas e estruturas, enquanto a chinesa pensa em interações e transformações e a única forma de um lado compreender o outro é esquecer todos os seus preceitos e tentar aprender com a ingenuidade e abertura de uma criança.

Dessa forma, Richard Garfinkle cria uma bela alegoria sobre as dificuldades de se compreender outras culturas e é refrescante ler um romance de ficção científica que trate não de conquista ou de apenas um indivíduo conhecendo novas formas de pensar, mas da interação de duas visões de mundo na qual a outra não faz nenhum sentido. Celestial Matters metaforiza bastante a Guerra Fria devido à semelhança entre o fogo solar e a bomba atômica.

Os personagens são intrigantes, como a guarda-costa espartana, o navegador indiano budista, o pirocientista persa que desenvolveu o método de capturar um pedaço do Sol e o próprio capitão Aias, que narra a história. Só achei o final um pouco fraco e certinho demais para uma história que lida com tantos pontos de vista ambíguos.

Este livro é um pouco raro e tive que comprar usado depois de atazanar parentes e amigos no exterior para vasculhar livrarias em busca de um exemplar. Celestial Matters é um belo exemplo de algo que eu acho que a ficção científica faz de melhor: criar um universo único e diferente para no final poder falar sobre o nosso.

gostei: criativo tanto na forma quanto nos temas que trata; personagens bem escritos; boas cenas de ação

não gostei: final não fez juz ao restante

editora: tor ISBN: 978-0312863487

links[wikipedia][amazon][google books]

Capa de livro imperdível de Burt Reynolds dos anos 70…

20/07/2010
por Solari
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Eu tenho uma paixão doentia por capas bizarras de livros e, confesso, sigo alguns blogs dedicados unicamente a esse tema.

O motivo é que de vez em quando eu encontro algo como essa preciosidade escrita por Burt Reynolds em 1972 com o título Hot Line: The Letters I Get… and Write!, que apareceu no blog Awful Library Books. Eu precisei dividir essa descoberta com os frequentadores da Casa.

Tenho medo de imaginar o conteúdo, ainda mais com a faixa vermelha ameaçando mostrar outras 16 páginas de fotografias do naipe dessas aí. Acho que o Burt Reynolds é o homem que melhor no mundo entende o peso de um bigode. Eu tiro o meu chapéu.

E agora voltamos à nossa programação normal.

Livro: The Kosher Guide to Imaginary Animals; de Ann & Jeff Vandermeer

15/07/2010
por Solari

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Proposta criativa e divertida vai por água abaixo por execução preguiçosa com jeitão de piada interna

Jeff Vandermeer é o editor do Thackery T. Lambshead Pocket Guide to Eccentric & Discredited Diseases, portanto foi com entusiasmo que eu comprei mais essa obra de utilidade duvidosa, que propõe mostrar se diversos animais fantasiosos são kosher ou não.

Eu imaginei uma mistura do Guia Lambshead com o livro das criaturas imaginárias de Borges, mas o tom de The Kosher Guide to Imaginary Animals é quase de uma piada interna para os leitores do blog de Vandermeer do que um livro propriamente e deixou bastante a desejar para mim.

Cada verbete traz uma descrição de um parágrafo de monstros como chupacabra, dragões e até a mula sem cabeça, todos belamente ilustrados, e um diálogo de algumas linhas entre Jeff –com seu pseudônimo blogueiro Evil Monkey- e sua esposa nos quais eles tentam transmitir um humor e charme pessoal que passou batido por mim.

O guia perdeu grandes oportunidades, como, por exemplo, explicar os preceitos dos produtos kosher ou a sua história, que continuo sabendo quase tão pouco sobre do que antes de ler o livro. A obra também é criminalmente curta e contempla apenas 34 criaturas em 96 páginas de espaçamento generoso que podem ser lidas em pouco mais de uma hora.

O livro sequer traz receitas propriamente, o que seria um exercício criativo interessante, salvo um diálogo no final com um host de um programa de culinária sobre como cozinhar uma Minhoca Mongol da Morte. Mesmo assim, de forma bem breve. Tenho forte suspeita que se o livro não fosse escrito por um casal de editores dificilmente seria comercializado.

Do jeito que está, Kosher Guide to Imaginary Animals caberia mais como um belo post em um blog, mas como livro é meio fraquinho. Parece que a minha opinião não é consensual, pois li resenhas de pessoas que gostaram bastante do livro, como a da i09, mas o tom da crítica é de amigo para amigo do que uma resenha propriamente.

Vale mais para assustar os colegas do que pela leitura em si. O preço é bem atraente, no entanto, e seis dólares valem umas carinhas assustadas.

gostei: Alguns verbetes bem engraçados; barato

não gostei: curto demais; com sensação de incompleto; pouco informa sobre o kosher; humor não me pegou

editora: Tachyon Publications ISBN: 978.1.892391.92.6

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