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Crônica: O peso de um bigode

29/04/2010

JackStasche2

Jack Nickolson em “The Last Detail” (1973). Veja outros bigodes notórios clicando na imagem, no blog “The Selvedge Yard”

No ano passado mantive um bigode por cerca de três meses, período do qual, até onde saiba, felizmente nenhum registro fotográfico sobreviveu. No entanto, até hoje as pessoas me perguntam como foi usar um bigode com uma curiosidade esperada ao se deparar com alguém que afirma ter tido uma experiência extracorpórea. Este texto tem o objetivo de saciar essa curiosidade dos mais afoitos. Se está curioso sobre daltonismo, vá aqui.

No primeiro dia que saí de casa com bigode eu já percebi uma nítida reação diferente das pessoas. E não apenas das que me conheciam, o que afinal era esperado, mas até estranhos na rua. Notava aquela fração de segundo na qual os olhares caíam de meus olhos para abaixo do meu nariz, antes de se desviar do meu rosto com o típico envergonhamento dos nativos das grandes cidades. Posso confirmar que até as miradas femininas se demoravam um pouco mais. Já não saberia dizer se por motivos sexuais ou cômicos, no entanto.

Descobri também que ostentar um bigode faz com que, queira ou não, você faça parte de uma seleta irmandade secreta composta por todos os homens de bigode. Não posso revelar muito, mas quando você encontra um colega bigodudo, ou na entrada de um prédio ou na fila do banco ou qualquer outra situação, há uma leve troca de olhares de cumplicidade. Como dois maçônicos ou rosacrucianos que se reconhecem em uma multidão de leigos. Um breve olhar que parece dizer, por aquele efêmero instante, “você é meu semelhante”.

Não apenas os outros, mas o seu próprio olhar se modifica e você passa a encarar as demais pessoas de bigode de uma nova maneira. Eu confesso que estiquei, aumentei e repuxei alguns eventos e reações neste texto com fins humorísticos, mas esse tanto eu juro que é verdadeiro: comecei até mesmo a me apiedar do Sarney, –que perseguição era aquela?– e me perguntar porque ninguém deixava em paz o pobre comparsa de bigode.

Depois de um tempo, percebi que o bigode é muito, mas muito, mais do que um apanhado de pelos debaixo da fuça. Como aquela roupa preta do homem-aranha que se revela uma criatura simbiótica, passei a notar uma personalidade do bigode que independia da minha, e não demorou muito para que eu passasse a tratá-lo mais como um companheiro de viagem do que um adendo estético. E com grande poder vem grande responsabilidade.

Não brinco! A minha postura mudou, o meu gingado ao andar na rua. Ficava mais predisposto a deixar um botão extra aberto da camisa mesmo que não estivesse calor. Ficava mais cínico nos comentários. Mais direto nas conversas. Percebi que a coisa ia longe demais quando passei a namorar correntes douradas vendidas em camelôs. E comecei a ficar viciado no Gesto.

O Gesto, como explicá-lo? Não sei quando o executei pela primeira vez, sei que foi algo instintivo o bastante para que nem notasse. Como se o Gesto fosse parte tão integral e instintiva para quem usa bigode como o desejo por carne é do lobo. Funciona assim:

Você coloca o indicador e o polegar unidos entre o nariz e a boca. Aí você passa a afastar os dedos lentamente até que eles vão amaciando os pelos e chegam juntos até a extremidade do bigode. Mas mesmo que possa explicar a movimentação do gesto, a sensação dele é indescritível. Repetia o dia inteirinho.

Se faria tudo de novo? Não sei responder. O bigode dá uma sensação de poder muito sedutora e descobri que é muito possível se perder nela. Mas disso estou certo; após essa experiência sei que até o último dos meus dias vou enxergar os bigodudos com respeito redobrado.

Solari, taverneiro

6 Comentários leave one →
  1. 30/04/2010 15:34

    Puxa cara achei seu texto sensacional… Eu QUASE me identifico com a situação descrita, não fosse o fato de eu não usar bigode, mas, uma barbixa em forma de triângulo invertido embaixo do lábio. Eu também tenho um gesto! Que seria mais ou menos assim: ” pegar os fios com o dedo indicador e o polegar e desliza-los até a ponta e repetir esse movimento… \o/ Muito bom o texto!

  2. 30/04/2010 15:43

    O que não é a malangradem, meu caro amigo?
    Pena, infinitas vezes pena, que tenho bigode pra deixar crescer!
    abraço.

  3. 30/04/2010 15:46

    Eu digitei errado o endereço do meu blog… malz

  4. 01/05/2010 1:13

    gostei do depoimento

  5. eliana silva Link Permanente
    03/05/2010 11:21

    Hã… muito me engano ou vc já fez parte de um mais seleto grupo, o das costeletas???
    Adorei!

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