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Crônica: É pra criança, sim senhor!

20/05/2010

WhereTheWildThingsAre

Duvido que seja exclusividade no Brasil, mas por aqui é endêmico o esporte de tratar criança feito idiota e chamar de educação. A idealização brazuca de uma obra infantil é algo nos moldes de “Abelhinha Bibi ensina o ABC” e qualquer coisa mais sombria –ou madura- é tratada como inadequada para os pimpolhos.

Por exemplo, dê uma googlada no filme Onde Vivem os Monstros, leia algumas resenhas e você perceberá um tom recorrente de “é muito bom, mas não é para crianças”. Dois argumentos principais são levantados: primeiro, que o filme é muito depressivo e assustador, segundo, que as crianças não iriam entender direito.

Depressivo e assustador ele é mesmo, mas a vida também é assim às vezes e até onde eu saiba é lá que as crianças vão passar a sua vida. O que há de errado em obras que abordem temas maduros ou com uma atmosfera mais pesada? Eu mesmo confesso que chorei quando a mãe do Bambi morreu (não contem para os meus comparsas) e o filme me deixou impressionado por um bom tempo sobre a inevitabilidade da minha própria morte e dos meus pais. Foi um baque de realidade que se integrou à minha personalidade e hoje eu agradeço por ele.

Alguns podem falar que o filme vai dar pesadelos, deixar a criança impressionada e, puxa, é isso que a arte faz! A arte te transforma enquanto o entretenimento te conforma. Se não dermos acesso a obras mais ambíguas, estamos formando as legiões de viciados em roteiros hollywoodianos formulaicos com belas lições de moral ao fim que encherão as sessões de IMAX Holographic 4D tm de amanhã.

Pense nos livros ou filmes que marcaram a sua infância e garanto que vai ter algo bem assustador no meio. E você prefere ter um filho que cresça sabendo pensar um pouco mais sobre questões como a natureza do mal, a morte, a raiva; ou um que dê pouco trabalho para dormir?

Quanto às crianças não entenderem direito Onde Vivem os Monstros, elas não vão mesmo. Porém, existem níveis de compreensão. A analogia entre a raiva do protagonista como um monstro interno e os monstros que ele encontra soltos fora de si vai passar batido pelas cabecinhas, mas todas as fábulas são absorvidas de forma inconsciente.

A sensação de medo, ou os momentos divertidos de brincadeiras apelam o bastante para a garotada para que eles apreciem. Talvez o cinéfilinho de hoje vai rever esse filme daqui a 20 anos e redescobrir nele uma nova profundidade. Isso também é o que a arte faz.

Eu percebo de forma muito acentuada essa disparidade quando comparo livros infantis nacionais e estrangeiros. Vejo, trabalhando no mercado editorial, que muitas obras que são dirigidas para crianças lá fora, chegam aqui marketadas puxando mais para os adolescentes, como O Livro do Cemitério, de Neil Gaiman. Alguns clássicos britânicos para pré-adolescentes como Watership Down e a série The Borribles tem palavrões, tortura, aprisionamento e outros temas que deixariam os deseducadores brasileiros de cabelo em pé.

É curioso como o livro de Danilo Gentili Como se Tornar o Pior Aluno da Escola recebeu críticas de pedagogos sobre o absurdo que é colocar as “nossas crianças” em contato com esse tipo de lixo. Afinal eles devem ir de anjinhos a delinquentes em poucas horas de leitura, em um livro que mostra as aulas como uma grande besteira e trata os professores como uns chatos.

O quê? Criança não pode ter senso de humor? Não pode ler uma sátira sobre a sua própria realidade? É requerimento básico o sujeito ser chato para virar um bom cidadão? Muito mais importante do que ensinar a se comportar é ensinar a pensar.

Não digo que todas as histórias infantis precisam tratar de temas sombrios ou mais maduros. A Abelinha Bibi pode sim ter o seu espaço, mas não pode ter um monopólio das cabecinhas.

2 Comentários leave one →
  1. 03/06/2010 23:11

    Ótimo texto Solari!

    Não devemos tratar as crianças como pequenos imbecis. Enquanto continuarmos confundindo inocência com idiotice formaremos adultos estúpidos e com um incipiente senso crítico.

    A criança pode – e deve – ser estimulada a sair de sua zona de conforto, desde que isso seja feito com sensibilidade e inteligência, o que acontece no filme de Spike Jonze.

  2. 11/07/2010 14:08

    Cai no seu site procurando por “mercado editorial” e “infantil” e achei seu texto genial. Como leitor de muitas das obras que citou, me sinto triste de ver como esse material é “R-rated” por aqui, segregando às crianças apenas a imbecilidade simplória do que pode ser considerado “de bom gosto”.

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