Microconto: “O que me importa a sua dor?”
Imagem: CC House of Sins
Num movimento rápido ele saltou e capturou um pardal em pleno ar. Trouxe a cabeça da ave, que escapava por entre os seus dedos, para bem perto do seu rosto e o encarou frente a frente.
“Como eu sinto o seu pequeno coração pulsar amedrontado”, confidenciou. “Como eu sinto o seu olhar ansioso em direção aos galhos, em direção às nuvens”.
Ele estendeu uma das asas em meio aos pios de protesto do animal. Num movimento rápido e seguro ele a quebrou, os pequenos ossos se partindo em um som abafado.
Ele depositou com carinho o pássaro no chão, acariciou sua cabeça com a ponta do indicador e o soltou. O pardal andava agonizante, arrastando a asa quebrada pelo chão e piando em vão por auxílio aos companheiros que o assistiam e respondiam das árvores com novos pios e olhares assustados.
Viraria brinquedo de algum gato em seus últimos momentos ou seria engolido inteiro pelo primeiro cão que aparecesse. E se tivesse a duvidosa sorte de sobreviver, pereceria eventualmente de sede, fome, devido ao sangramento interno da asa ou por puro medo. Sem nunca jamais entender.
“O que eu fiz além de adiantar o inevitável?” ele murmurou. “O que me importa a sua dor? Responda isso e com um desejo eu faço com que sua vida e sua asa voltem ao que eram há poucos segundos. Responda isso e eu apago até mesmo a memória da dor e do medo”.
O passarinho não respondeu, apenas piou seu sofrimento.
Ele logo se entediou e seguiu seu caminho, buscando respostas em outro lugar.


Excelente conto. A visão egocêntrica e psicótica de uma mente atormentada. Lembra a personagem Marilyn Jordan do filme Montenegro, de Dusan Makavejev
Humm, obrigado pela indicação do filme, Álvaro. Fiquei interessado e vou caçar pra dar uma olhada.
Parabéns pelo blog. E pelo conto – bem pesado, aliás.
Sou advogado e também admirador de literatura, filmes e “até” games.
Continue o ótimo trabalho!
Muito obrigado Eduardo, e seja bem vindo à Taverna.
Abs!