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Livro: Hyperion – de Dan Simmons

18/01/2011

Romance recria o clássico formato de troca de histórias entre viajantes da literatura medieval para contar uma saga sobre perda e arrependimento

Hyperion

Dan Simmons é um escritor de ficção científica literária no mais direto dos sentidos, já que ele inclui em suas obras de ficção especulativa discussões pessoais sobre clássicos da literatura e poesia. E se em Song of Kali a bola literária da vez era o poeta indiano Rabindranath Tagore, em Hyperion ele utiliza um formato quase idêntico ao de coletâneas como The Canterbury Tales ou Decamerão. Só que no espaço e em torno de uma criatura assassina de metal retorcido.

Hyperion é um planeta à beira de uma guerra que promete eclipsar todas as outras que a humanidade encontrou. É também casa de três artefatos alienígenas: um labirinto, misteriosas tumbas que viajam no sentido oposto do tempo ao nosso e o Shrike, essa criaturinha simpática que você vê na capa aí do lado. Uma criatura que aparentemente é capaz de se mover no tempo à vontade, aparecer onde quer e mata sem explicação.

Assim como em Canterbury Tales e Decamerão, os peregrinos de Hyperion se alternam contando sobre sua relação com o misterioso Shrike conforme se dirigem às Tumbas do Tempo. Cada contador é de um arquétipo diferente: o padre, o soldado, o poeta, o acadêmico, o capitão, a detetive e o cônsul e as histórias variam em velocidade de narrativa e formato. A do padre, por exemplo, é transmitida na forma de diário encontrado, a do soldado é rápida e cheia de combates e aventuras e a da detetive possui um sabor noir de conto policial. A do poeta, por sua vez, interliga de forma muito intrigante a vida do planeta com a do também poeta John Keats, mostrando de novo o interesse de Dan Simmons nos clássicos.

…utiliza um formato quase idêntico ao de coletâneas como The Canterbury Tales ou Decamerão. Só que no espaço e em torno de uma criatura assassina de metal retorcido.

Ajuda bastante o fato de que elas são muito bem escritas. Qualquer uma delas poderia ser transformada em um romance curto sem dificuldade e a forma como elas se interelacionam entre si e com o mistério do Shrike é extremamente bem construída. O autor também se mostra um exímio dosador de informação para a compreensão do mistério maior das tumbas e do Shrike. Cada história revela um pouco mais do mistério final, e nunca essa revelação é óbvia, e sempre fiquei interessado em saber qual seria a próxima.

Geralmente eu não comento sobre o final de um livro por motivos óbvios, mas Hyperion não possui final. A história termina em um dos mais descarados cliffhangers que eu já vi fantasiado de final aberto. Continua então nos próximos capítulos? Dan Simmons, seu espertinho… Se os leitores permitem a este taverneiro um lapso para uma comparação grosseira, pareceu que a parceira resolveu virar para o lado e dormir quando você estava a cinco segundos de chegar lá.

Mas no final, eu perdôo essa provocação do escritor, já que acho muito melhor dosar informações para manter o leitor intrigado do que não explicar nada ou, pior, tentar explicar tudo em um final Deus ex Machina grudado com silvertape (LOST?). E a dose em Hyperion é ideal entre a frustração de não saber e a vontade de continuar lendo para saber mais. O livro foi vencedor do prêmio Hugo em 1989 e é o primeiro da série Hyperion Cantos. Em breve mais resenhas da saga na Taverna Fim do Mundo.

gostei: quase sete livros em um; personagens bem construídos; boa narrativa; mistério interessante sendo revelado aos poucos; muito boa construção de mundo; histórias interligadas

não gostei: final aberto anticlimático

idioma: inglês editora: bantam books ISBN:9780553283686

edição brasileira: desconheço, acho que não possui

2 Comentários leave one →
  1. 18/01/2011 19:01

    Gostei do comentário sobre o Lost. Aliás, nessa série, o silvertape, para mim, aparece desde o primeiro capítulo.

Trackbacks

  1. Os 3 livros favoritos da Taverna Fim do Mundo em 2011 « Taverna Fim do Mundo

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