O Adeus a Glorytown – de Eduardo Calcines
O relato de infância de um dissidente crescendo em Cuba durante a primeira década do regime castrista mostra o choque entre a ingenuidade e o totalitarismo

O Adeus a Glorytown é uma curiosa combinação de rememoração com relato histórico. O exilado cubano Eduardo Calcines relembra sua infância morando no bairro de Glorytown na cidade de Cienfuegos durante a primeira década da revolução comunista de Cuba, enxergando pelas lentes de menino as transformações na ilha, na sua família e em si mesmo.
Os Calcines eram uma família de classe média alta em Cuba, acostumados a animados jantares familiares e a morar em casas confortáveis. Eduardo, com apenas 3 anos quando a revolução se iniciou, de princípio se encanta com a presença de soldados a cada esquina e acha curiosa a Voz que sai a discursar incessantemente não apenas no rádio, mas também em autofalantes espalhados por todo lugar.
Porém essa inocência pouco dura, conforme despenca o padrão de vida da família, com a carne se tornando uma raridade e filas para adquirir artigos básicos e racionamentos virando parte do cotidiano. E as coisas pioram quando eles passam a se tornar alvos ativos da perseguição, após decidirem pedir um visto para se mudarem aos Estados Unidos.
O procedimento envolve receber um representante do governo para fazer um inventário das posses da família – a fim de que eles não “roubem” nada quando forem aos EUA já que tudo é propriedade do Estado – e aguardar por um telegrama indicando a data para embarcarem. Isso culminará em um tenso momento quando estão para embarcar, quando o oficial percebe a falta de uma cortina, o que ameaça impedir a viagem dos Calcines. Porém, o tal telegrama que deveria levar “um ou dois anos” para chegar, aparece só depois de mais de uma década de espera.
Conforme os anos se acumulam, a família de Calcines passa a sofrer perseguições diversas. Brutamontes de grupos ligados ao governo aparecem para incitar brigas no bairro, o tio e pai de Eduardo são enviados a “campos de reeducação” – eufemismo para campos de trabalho forçado –, Eduardo apanha de colegas de classe a olhos vistos de professores que até incitam o conflito. Culminando em uma professora de matemática particularmente fervorosa ao regime que faz com que Eduardo se levante e pede para que todos vejam “como é um verme” no seu primeiro dia de aula, entre outras delicadezas.
A obra mostra o tremendo poder da propaganda nos regimes totalitários, os perigos de quando a população é incentivada a terceirizar o seu cérebro para o governo. A propaganda revolucionária intensa se enraíza entre os próprios conhecidos e parentes de Eduardo, como a namoradinha que de uma hora para a outra passa a papagaiar propaganda oficial e pede a Calcines a se filiar ao partido, ou o primo que se torna comunista.
O relato do autor contém diversos personagens marcantes e sua relação com eles é o que dá um tom muito mais íntimo a O Adeus a Glorytown em comparação a obras semelhantes sobre o período. Em especial com os avós que moravam do outro lado da rua e com a irmã mais nova. Me surpreendi com a leitura de O Adeus a Glorytown. Além da força da história em si, o autor soube dosar muito bem a sua visão infantil durante a narrativa. A despedida de Eduardo e seus pais dos avós quando eles finalmente iriam aos EUA – e nunca mais se veriam novamente – é um dos momentos mais tristes que li nos últimos tempos. Um momento que mostra como movimentos políticos podem traçar linhas dentro das próprias famílias, separando-as seja pela distância do exílio, seja pela ideologia.
gostei: história forte retratada com um tom ao mesmo tempo infantil e maduro; relação bela entre os personagens; boa tradução
não gostei: nada a reclamar
idioma: português editora: nossa cultura ISBN: 9788580660180


Terceirização do cérebro nunca dá certo. Seja para o que for. Parece interessante o livro.
esse eu gostaria de ler