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J. Edgar Hoover: Uma Biografia em HQ – de Rick Geary

23/04/2012

A resenha da obra abaixo foi publicada originalmente no UOL, mas é trazida a esta Casa para degustação dos tão ilustres frequentadores.

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“J. Edgar Hoover: Uma Biografia em HQ” acompanha a trajetória do pai do FBI, que transformou a instituição de um cabide de cargos para favorecidos políticos em uma das mais emblemáticas agências de inteligência do século 20. Mais do que isso, a obra do quadrinista Rick Geary revela como Hoover -que passou por nada menos que oito presidentes americanos- fez do FBI um instrumento da sua vontade com seu estilo agressivo e implacável.

“Edgar Hoover foi um tema perfeito porque ninguém na história americana é o melhor exemplo de como o poder absoluto corrompe absolutamente,” disse Geary ao UOL. ”De certa forma, sua vida define a América no século 20”.

A obra tem uma abordagem que prima pela clareza acima de tudo. “Eu acredito que o formato de história gráfica é perfeito para temas de não-ficção, históricos, jornalísticos e biográficos, no qual se pode fornecer o máximo de clareza,” falou Geary.” A relação texto e imagem pode transmitir o máximo de informações”.

As imagens complementam diretamente o texto, às vezes lembrando mais um infográfico do que uma história em quadrinhos. Quando a história menciona as investigações de Hoover em Hollywood, aparecem holofotes de cinema. Quando fala da invasão alemã da Polônia, vemos tanques com suásticas ao lado. Envolvimento de John Kennedy com Marilyn Monroe é retratado com… John Kennedy ao lado de Marylin Monroe. E assim segue pelas pouco mais de cem páginas da obra.

Alguns podem não aprovar essa abordagem mais textual, mas ela não é nada ruim se considerarmos a quantidade de informações que o quadrinista conseguiu embutir em tão pequeno espaço. “J. Edgar Hoover” é muito informativo e é difícil imaginar outra forma de transmitir de forma clara e interessante uma dose tão maciça de dados. É um bom exemplo do potencial informativo dos quadrinhos, que nem sempre é considerado com a seriedade que deveria.

Vidas em quadrinhos

Além de “J. Edgar Hoover” tivemos no Brasil bons lançamentos desse gênero nos últimos anos. O premiado “Johnny Cash: Uma Biografia”, por exemplo, coloca o ícone country dentro de suas próprias músicas de uma forma que muitas vezes não sabemos o que é factual e o que é reimaginado. “A Guerra de Alan” tem um traço confuso que contribui para a sensação de imprecisão de memória conforme um soldado veterano relembra o passado. Uma breve amostra de como o estilo de narrativa e traço da HQs podem se adaptar ao próprio biografado. No caso de “J. Edgar Hoover”, o estilo direto casa perfeitamente com o jeito ordeiro do criador do FBI.

“Eu acredito que quando eu trabalho em qualquer tipo de projeto gráfico de grande escala, eu pareço obcecado com a ordem e controle, exatamente como Hoover era,” contou Geary.

É uma pena que as biografias em quadrinhos não sejam levadas mais a sério fora dos nichos de público ou da mídia especializada. “Nos Estados Unidos, livros em quadrinhos e a narrativa gráfica, em geral, são tratados com menos seriedade do que outras formas de expressão,” concorda Geary. “Mas isso tem mudado, ao longo da última década ou duas”. Obras como “J. Edgar Hoover” mostram que os quadrinhos podem não só fazer frente à não-ficção em livros, como proporcionar uma experiência fundamentalmente distinta.

A Invenção de Hugo Cabret – de Brian Selznick

18/04/2012

Livro transmite o fascínio dos primórdios do cinema através da história de um menino que precisa concertar um autômato que teria uma mensagem de seu pai

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A Invenção de Hugo Cabret foi o livro que baseou o filme Hugo, dirigido por Martin Scorsese e vencedor de cinco oscars na cerimônia deste ano. A obra acompanha um menino chamado Hugo que vive na surdina em uma estação de trem parisiense nos anos 1930, enquanto tenta consertar um autômato que conteria uma mensagem de seu pai falecido. A trajetória de Hugo acaba se tornando uma homenagem ao nascimento do cinema, na qual a nova sétima arte fazia jus ao apelido de fábrica de sonhos.

O autor Brian Selznick encontrou uma forma engenhosa de transformar A Invenção de Hugo Cabret em uma espécie de livro-cinema-mudo. As ilustrações talvez cheguem a preencher metade do tomo, e não é raro páginas de texto serem compostas por umas duas frases apenas, lembrando os quadros narrativos dos filmes não-falados. Os próprios desenhos em preto e branco transmitem aquela sensação de iluminação prata dos primeiros projetores.

Isso me causou a ilusão de como se estivesse “lendo” um filme mudo, particularmente em cenas de perseguição como a de Hugo e o inspetor da estação, nas quais ilustrações são usadas em sequência. Ou ainda nos trechos em que é dado um zoom bem cinematográfico página a página rumo a um detalhe específico. O texto é enxuto, movendo a narrativa e criando uma atmosfera bem particular com grande economia de palavras. Verdadeiro tapa na cara do estilão mais descritivo da literatura, digamos, convencional.

É interessante como A Invenção de Hugo Cabret relembra a glória do cinema em um momento no qual ele está em plena crise. Não posso falar sobre a qualidade visual do filme de Scorsese, pois não o assisti, mas a obsessão atual de Hollywood em enfiar o tal do 3D goela abaixo das plateias mundiais me parece uma tentativa de recuperar esse fascínio do cinema como fábrica de sonhos. Talvez também daí venha a onda de filmes sobre a história do cinema na última cerimônia dos prêmios da Academia, encabeçada por O Artista.

A Invenção de Hugo Cabret mostra uma época de maior ingenuidade, na qual a simples projeção de um trem parando na estação era suficiente para fazer a plateia fugir em pânico – como se ele fosse transpor a tela – quando hoje o público boceja ao ver um dinossauro recriado perfeitamente por gráficos computadorizados. Uma época morta na qual a ilusão do cinema era criada por mágicos, não por técnicos.

A versão Nacional é pela SM Edições, com tradução sem percalsos. Não sei se a edição original é assim, mas uma crítica que faço é que a lombada do livro não dobra muito, tornando impossível enxergar direito as belíssimas ilustrações. A Taverna Fim do Mundo agradece à comparsa Estefani pelo empréstimo do livro. Fique abaixo com algumas das imagens que compoem A Invenção de Hugo Cabret.

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A Máquina Diferencial; de William Gibson e Bruce Sterling

16/03/2012

A resenha da obra abaixo foi publicada originalmente no UOL, mas é trazida a esta Casa para degustação dos tão ilustres frequentadores.

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Lançado originalmente em 1991, “A Máquina Diferencial” é resultado do trabalho colaborativo de dois grandes nomes da ficção científica: William Gibson e Bruce Sterling. Os autores, que definiram o subgênero do cyberpunk em contos e obras como “Neuromancer”, misturam agora a atmosfera de hackers, inteligência artificial e redes de informação com o steampunk, a ficção científica baseada na época vitoriana. O resultado é surpreendente em diferentes aspectos.

A história se divide em “iterações” com histórias ambientadas em um século 19 paralelo no qual o Império Britânico desenvolveu os primeiros computadores 100 anos antes da realidade. Essas narrativas e personagens individuais se interrelacionam compondo uma trama maior de intriga política. Mas o ponto central de “A Máquina Diferencial” é mesmo a ambientação e imaginar o impacto que tecnologias como computadores de cartão e processamento de informação poderiam ter caso aparecessem antes.

Por esse motivo, “A Máquina Diferencial” traz para uma construção de mundo extremamente minuciosa, mesmo para os padrões da ficção científica. A vida pelas ruas da Londres da realidade alternativa do livro é descrita em seus mínimos detalhes, seja nas roupas, hábitos, tensões sociais, objetos, gírias e personagens históricos. Até mesmo o cenário internacional é reimaginado, com um império britânico mais fortalecido e os Estados Unidos dividindo a América do Norte com outras nações. Uma divisão que é fonte de constantes tensões políticas para o Reino Unido.

Não existe receita mais fácil para uma história enfadonha do que uma overdose de exposições em um livro com mais de 400 páginas como “A Máquina Diferencial” e é aqui que a experiência dos veteranos Gibson e Sterling faze toda a diferença. Cada parágrafo, por mais carregado de informações que seja, é bem preenchido e interessante, inserindo o leitor até o pescoço no universo da obra sem fazê-lo piscar de sono.

Fãs de ambos os autores ou da ficção científica em geral também devem apreciar que a versão nacional traz o postfácio incluído na edição comemorativa de 20 anos da obra. Nele, os autores explicam em parágrafos alternados o curioso processo de criação de “A Máquina Diferencial”. Ao longo de sete anos, Gibson e Sterling trocavam desde pilhas de disquetes com textos pelo correio quando os enviavam pela frágil conexão das redes discadas dos anos 1980. E no processo de escrita, as duas vozes dos autores se misturaram até aparecer outra terceira voz independente, um narrador resultante da própria interação entre os dois, um “Narratron”, como definem. “O resultado é um livro que não poderia ser produzido sem um processador,” analisa Gibson no postfácio.

“A Máquina Diferencial” é um livro repleto de neologismos, de termos antiquados ou de tecnologias não mais usadas; o que traz desafios bem particulares para se evitar uma tradução mambembe. Portanto é reconfortante constatar que a tradução da editora Aleph foi feita com o cuidado que a obra merece, levando em conta expressões idiomáticas, trocadilhos e adaptação de palavras ao português. O livro também contém ao final um guia de personagens e um muito bem-vindo glossário, que talvez ajude ser lido até antes da obra em si.

O interessante do steampunk dentro da ficção científica é como ele nos faz repensar a própria definição de ciência ao tornar futuristas tecnologias obsoletas. “A Máquina Diferencial” faz isso e vai além, sendo tanto uma história empolgante de dois veteranos do gênero como uma curiosidade narrativa sobre o processo de criação literário a quatro mãos.

O Adeus a Glorytown – de Eduardo Calcines

24/01/2012

O relato de infância de um dissidente crescendo em Cuba durante a primeira década do regime castrista mostra o choque entre a ingenuidade e o totalitarismo

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O Adeus a Glorytown é uma curiosa combinação de rememoração com relato histórico. O exilado cubano Eduardo Calcines relembra sua infância morando no bairro de Glorytown na cidade de Cienfuegos durante a primeira década da revolução comunista de Cuba, enxergando pelas lentes de menino as transformações na ilha, na sua família e em si mesmo.

Os Calcines eram uma família de classe média alta em Cuba, acostumados a animados jantares familiares e a morar em casas confortáveis. Eduardo, com apenas 3 anos quando a revolução se iniciou, de princípio se encanta com a presença de soldados a cada esquina e acha curiosa a Voz que sai a discursar incessantemente não apenas no rádio, mas também em autofalantes espalhados por todo lugar.

Porém essa inocência pouco dura, conforme despenca o padrão de vida da família, com a carne se tornando uma raridade e filas para adquirir artigos básicos e racionamentos virando parte do cotidiano. E as coisas pioram quando eles passam a se tornar alvos ativos da perseguição, após decidirem pedir um visto para se mudarem aos Estados Unidos.

O procedimento envolve receber um representante do governo para fazer um inventário das posses da família – a fim de que eles não “roubem” nada quando forem aos EUA já que tudo é propriedade do Estado – e aguardar por um telegrama indicando a data para embarcarem. Isso culminará em um tenso  momento quando estão para embarcar, quando o oficial percebe a falta de uma cortina, o que ameaça impedir a viagem dos Calcines. Porém, o tal telegrama que deveria levar “um ou dois anos” para chegar, aparece só depois de mais de uma década de espera.

Conforme os anos se acumulam, a família de Calcines passa a sofrer perseguições diversas. Brutamontes de grupos ligados ao governo aparecem para incitar brigas no bairro, o tio e pai de Eduardo são enviados a “campos de reeducação” – eufemismo para campos de trabalho forçado –, Eduardo apanha de colegas de classe a olhos vistos de professores que até incitam o conflito. Culminando em uma professora de matemática particularmente fervorosa ao regime que faz com que Eduardo se levante e pede para que todos vejam “como é um verme” no seu primeiro dia de aula, entre outras delicadezas.

A obra mostra o tremendo poder da propaganda nos regimes totalitários, os perigos de quando a população é incentivada a terceirizar o seu cérebro para o governo. A propaganda revolucionária intensa se enraíza entre os próprios conhecidos e parentes de Eduardo, como a namoradinha que de uma hora para a outra passa a papagaiar propaganda oficial e pede a Calcines a se filiar ao partido, ou o primo que se torna comunista.

O relato do autor contém diversos personagens marcantes e sua relação com eles é o que dá um tom muito mais íntimo a O Adeus a Glorytown em comparação a obras semelhantes sobre o período. Em especial com os avós que moravam do outro lado da rua e com a irmã mais nova. Me surpreendi com a leitura de O Adeus a Glorytown. Além da força da história em si, o autor soube dosar muito bem a sua visão infantil durante a narrativa. A despedida de Eduardo e seus pais dos avós quando eles finalmente iriam aos EUA – e nunca mais se veriam novamente – é um dos momentos mais tristes que li nos últimos tempos. Um momento que mostra como movimentos políticos podem traçar linhas dentro das próprias famílias, separando-as seja pela distância do exílio, seja pela ideologia.

gostei: história forte retratada com um tom ao mesmo tempo infantil e maduro; relação bela entre os personagens; boa tradução

não gostei: nada a reclamar

idioma: português editora: nossa cultura ISBN: 9788580660180

The Gods Themselves – de Isaac Asimov

19/01/2012

O maior defeito desse clássico da ficção científica é divergir do estilo usual de Asimov, mas esse também é a sua maior virtude

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Para um escritor de ficção científica, Asimov é notório por ter poucas histórias com alienígenas e se concentrar mais em robôs. Mas quando escreve sobre aliens, como em The Gods Themselves, eles são nada menos que amebas de três sexos – e uma delas ainda é “gay” – com direito a masturbação desenfreada e orgias minuciosamente descritas pelo autor.

O livro traz três histórias que giram em torno da descoberta de uma tecnologia que permite à humanidade criar energia limpa, renovável e em escala praticamente ilimitada; que envolve a troca de matéria entre o nosso universo e outro paralelo com regras físicas diferentes. A primeira trata da descoberta do tal processo – se é que a palavra “descoberta” pode ser usada aqui, já que ele é iniciado pelas amebas conscientes do tal universo paralelo.

Essa narrativa inicial é mais expositiva, lidando  com as brigas de ego entre os cientistas pelo reconhecimento das “bombas” que geram a energia e depois em tentar mostrar que elas podem ter consequências catastróficas. Talvez seja a parte que mais se aproxima do estilo tradicional de Asimov: diálogos científicos entre personagens que francamente não possuem muita distinção entre si nos diálogos.

A segunda parte é ambientada no mundo das “amebas”, palavra que uso aqui na falta de uma melhor descrição. Esse trecho é praticamente irreconhecível do Asimov tradicional, lembrando autores mais, digamos, psicodélicos da narrativa especulativa. Achei um trecho de grande criatividade, com personagens de surpreendente profundidade humana – muito mais do que os seres humanos -, tratando de temas como família, amor e dever conforme uma ameba descobre que as bombas podem ter consequências desastrosas. Além de trechos inadvertidamente cômicos como o sexo das amebas.

A terceira parte retorna ao nosso bom e velho universo, mas na lua. A história agora se centra no relacionamento de um físico terráqueo e uma nativa da lua, e oferece um meio termo entre os personagens mais estáticos da primeira parte e os complexos da segunda.

É curioso que The Gods Themselves não é apreciado por muitos fãs de Asimov, devido ao estilo diferente de seu usual ou até críticas sobre o discutível conteúdo científico, entre os amantes do sci fi “hard”. O próprio Asimov disse em uma entrevista que esse  foi um dos trechos de sua obra que ele escreveu mais livremente. Para mim, o tom distinto do estilo mais burocrático do autor fez valer o livro para mim mais do que clássicos de Asimov como Fundação.

gostei: visão criativa de uma sociedade verdadeiramente alienígena

não gostei: primeira parte peca por personagens pouco inspirados

idioma: inglês editora: bantam books ISBN: 9780553288100

Os 3 livros favoritos da Taverna Fim do Mundo em 2011

16/01/2012

DerBucherworm1 Imagem: Detalhe de Der Bücherworm (1850); de Carl Spitzweg

O ano de 2011 da Taverna Fim do Mundo teve 13 resenhas, poucas em comparação a anos anteriores. Não foi um ano com menos leituras, creio que até ultrapassei marcas passadas, mas projetos paralelos impediram o taverneiro de dedicar mais tempo à esta ilustre Casa.

O taverneiro, portanto, se reserva o direito de escolher apenas 3 livros mais marcantes ao invés dos 10 de costume. No entanto, cada um deles é excelente e não deve em nada aos favoritos de anos anteriores. Segue a relação abaixo:

3 – A Guerra de Alan – de Emmanuel Guibert
As lembranças de um veterano da Segunda Guerra transpassada aos quadrinhos, porém dois pontos fazem toda a diferença entre A Guerra de Alan de obras semelhantes. A primeira é como pouquíssimo se fala de guerra no final das contas, já que Alan Ingram Scope só atirou uma vez em combate e nem sabe se acertou alguma coisa, mas em compensação se revela um observador minucioso das pessoas e pequenos detalhes de sua vida. O segundo é a ênfase do quadrinista Emmanuel Guibert em lembrar não os fatos históricos, mas como a guerra e os anos seguintes sobreviveram na memória de Alan, inclusive no estilo dos traços. O resultado é um tom diferente do heróico ou de relatos de atrocidades, e sim a sensação de se esticar o pescoço e enxergar com rara intimidade a trajetória de uma vida não menos fascinante.

A Guerra de Alan – de Emmanuel Guibert

2 – Hyperion – de Dan Simmons
Uma exímia recontrução do formato de contos interligados do clássico Os Contos de Canterbury aplicado à ficção científica. Mas Hyperion vai muito além desse artifício devido à qualidade das histórias, que mudam de formato de acordo com o personagem que as narra e cada uma revela um pouco mais de  um mistério envolvendo paradoxos temporais, cultos exóticos e uma intrigante criatura que parece ser capaz de se mover à vontade por tempo e espaço e que mata sem aparente explicação. O autor Dan Simmons é um grande amante da literatura clássica, e a forma como ele aplica essa profundidade narrativa ao sci fi faz a diferença entre Hyperion ser mais um livro de capa e espada no espaço, um livro consegue trazer meditações profundas junto de suspense e momentos de ação.

Hyperion – de Dan Simmons
1 – Tóquio Proibida – por Jake Adelstein

Nos últimos anos lí diversos livros excelentes de não-ficção, mas nenhum foi tão fascinante quanto Tóquio Proibida. Escrito pelo jornalista norte-americano radicado no Japão Jake Adelstein, a obra é um retrato fascinante não apenas do submundo criminal japonês, mas também do jornalismo e da cultura nipônica. Adelstein tem um olhar privilegiado para essa análise, sendo japonês o bastante para compreender o que vê, mas estrangeiro o suficiente para apreciar a bizarrice que só o Japão pode criar. Ajuda o fato de que o autor tem um olhar muito apurado para suas descrições e excelente capacidade narrativa para interligá-las, em uma história que evolui conforme a própria visão do autor vai indo do fascínio com os yakuzas ao horror de conhecer em primeira mão os perigos da máfia japonesa.

Tóquio Proibida – por Jake Adelstein

A Guerra de Alan – de Emmanuel Guibert

24/11/2011

HQ mostra a Segunda Guerra a partir das memórias de um veterano, trocando ação e batalhas pela observação minuciosa do cotidiano e do passado

AGuerraDeAlanA Guerra de Alan é o resultado do encontro e da amizade entre o quadrinista francês Emmanuel Guibert e Alan Ingram Cope, um norte-americano veterano da Segunda Guerra que permaneceu na Europa após o conflito e se aposentou em uma ilha no norte da França. Cope, um homem sensível e com interesse em pessoas, música, poesia  e literatura, tinha grande memória para os detalhes, o que dá muita riqueza ao seu relato.

Porque essa não é mais uma história da Segunda Guerra, mas sim do conflito segundo a trajetória pessoal de Cope. A HQ tem ausência quase completa de batalhas ou as atrocidades que costumam pontuar relatos do período. O próprio Cope só atirou uma vez em combate – com a metralhadora de seu blindado – e mesmo assim mal enxergou para onde mirava, quanto mais se acertou algum alemão. É possível visualizar através das páginas Cope sentado narrando por horas suas histórias, daquelas de veteranos, típicas para entediar netinhos, mas com um charme especial para quem se adequar à sua toada.

Cope é de fato um observador minucioso, lembrando detalhes de sua vida e uma série de historietas. Como quando ainda em treinamento foi com outros soldados comprar uma bisteca com outros soldados por meio dólar de um lenhador, seu primeiro encontro quase-sexual com uma adolescente cigana na França, uma alucinação durante uma patrulha noturna. Mas mais do que tudo, Cope se mostra um amante de pessoas, repetidamente tenta contato por carta com conhecidos após a guerra e dá grande importância com o destino das que cruzam seu caminho.

Guibert teve a sensibilidade de manter a perspectiva dentro do que Cope contava, mantendo até erros óbvios que ele confundiu em seu relato. Mas não se trata de como a guerra foi um dia, mas como ela se tornou para Cope em suas memórias. O estilo da arte acompanha o ar de lembrança dos relatos. Desenhos deixados pela metade, como que perdidos na névoa da memória, ou com traços incertos de aquarela em momentos marcantes.

Depois de ler A Guerra de Alan fiquei com a sensação de não ter lido uma HQ, mas ouvido um relato oral com as imagens sendo construídas pelo quadrinista. Uma obra sensível e de grande valor para os interessados em história oral.

Leia abaixo um breve trecho:Alan1

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gostei: traço contribui para a sensação de lembranças; história com toque íntimo; mais sobre a trajetória da vida humana do que a guerra em si

não gostei: narrativa lenta pode não agradar a quem não comprar a proposta

idioma: português editora: zarabatana books ISBN: 978-85-60090-27-3

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