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Ragnarök – por Mirella Faur

19/10/2011

Não se engane pela capa de ar infantojuvenil, Ragnarök é uma bem organizada e completa obra de referência sobre a fascinante mitologia nórdica

Ragnarök: Uma Introdução à Mitologia Nórdica–por Mirella Faur

Escrito pela romena radicada no Brasil Mirella Faur, Ragnarök é mais do que a introdução à mitologia nórdica como seu título sugere. É uma obra extremamente completa sobre o assunto, que traz contexto histórico, cosmogonia, panteões com verbetes individuais para diversas grandes e pequenas divindades, descrições de criaturas mitológicas, roteiro de datas sagradas e seus significados, linha do tempo, tabelas de correspondências de divindades bibliografia organizada para quem quer se aprofundar. Até guia de pronúncia o livro traz.

E histórias, muitas delas. Algumas com boa dose de humor, como Loki que amarra seus colhões na barba de um bode e se deixa arrastar para tentar fazer rir uma deusa, ou Thor – de todos os deuses – vestido de noiva para recuperar seu martelo de um gigante.

Ragnarök tem dois grandes méritos adicionais a meu ver. O primeiro é o enfoque feminino que Faur consegue resgatar nas histórias sem tornar o livro um panfleto. Ela mostra a tensão ao longo da história para que prevalecesse uma visão mais patriarcal, em particular com a difusão do cristianismo nos países nórdicos. Isso fez com que muitas manifestações femininas de poder fossem tachadas de bruxaria, não só as sacerdotisas, mas a própria tradição de transmissão oral de conhecimento entre as mulheres. Muitas das histórias tradicionais que sobreviveram desses povos não foram as passadas entre as mulheres, mas sim como as mulheres deveriam ser aos olhos dos homens.

O segundo grande mérito – e para mim o maior – é resgatar essas histórias, arquétipos e personagens como expressões humanas ao invés de matéria-prima para produtos da indústria do entretenimento. Não tenho nada contra filmes ou quadrinhos de super-heróis, eu mesmo gosto de muitos, mas é bom lembrarmos que essas representações são eco de algo muito profundo e antigo. São tentativas de compreensão do universo dos seres humanos frente às forças da natureza. São reflexos de medos e de desejos e uma forma de preservação de identidade cultural ao invés de distração para um fim de tarde, que é a principal relação que nós temos hoje com a mitologia.

Curiosamente, isso parece passar batido se você julgar Ragnarök pela capa e contracapa, que traz ilustrações e comentários típicos de literatura infantojuvenil, citando desde relações com games a Cavaleiros do Zodíaco. Entendo a necessidade de uma editora de vender o seu livro e encontrar ganchos para tanto, mas o livro de Faur não menciona nenhuma dessas referências e se trata de uma obra madura e bem pesquisada sobre mitologia nórdica. O leitor que buscar isso provavelmente nem vai abrir o livro se julgá-lo por sua capa.

No final, o livro entrega bem o que propõe. Uma excelente introdução à mitologia nórdica, muito informativa, bem organizada repleta de boas histórias e explicações de contexto histórico.

gostei: organizado; completo; rico em histórias; contexto histórico

não gostei: faz juz à sua proposta; sem reclamações

idioma: português editora: editora cultrix ISBN: 9788531611254

Eu vi coisas que vocês não acreditariam…

13/10/2011

Um dos meus solilóquios prefeferidos da ficção científica, no final de Blade Runner.

Dez coisas que já fiz para ganhar dinheiro

11/10/2011

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1. Ser motorista de Papai Noel na Véspera de Natal

2. Entrevistar estilistas de cachorros

3. Fotografar a demonstração de um simulador alemão de partos

4. Trocar vinte e cinco vezes de roupa e dirigir uma kombi florida em um set de filmagem

5. Vender luminárias de cristal de 50 mil reais

6. Jogar videogame

7. Editar fotos sexy da Katy Perry no Photoshop

8. Escrever a profilaxia, história e principais casos históricos de uma doença que não existe

9. Recitar com uma camiseta do Chile poesia em portunhol em uma feira de rua

10. Me fingir de industrial no telefone para fazer cotações de peças de fábrica

E pior que é tudo verdade.

Tenho medo de pensar o que meus próximos 32 anos de carreira me reservam.

Tóquio Proibida – por Jake Adelstein

04/10/2011

Um livro que vai muito além do exotismo do crime e da yakuza para se tornar um retrato autobiográfico e do que fica por debaixo do tapete da sociedade japonesaTóquio Proibida – por Jake Adelstein

Tóquio Proibida é o relato autobiográfico do norte-americano Jake Adelstein, que foi para o Japão querendo ser monge e terminou sendo jornalista. O livro acompanha a carreira de Adelstein conforme ele ingressa no jornalismo nipônico, passa a cobrir e até se deslumbrar com o universo da máfia japonesa – os yakuzas – até o momento que o deslumbramento se transforma em terror.

Se existe um povo que gosta de ler jornal no mundo, é o japonês. Para botar as coisas em perspectiva: o Japão tem uma população menor que a brasileira, mas enquanto os nossos maiores jornais como Folha de S.Paulo e Estadão brigam para manter tiragens entre 200 e 300 mil exemplares, só o Yomiuri Shinbum no qual o autor trabalhou tem tiragem de mais de 10 milhões exemplares por dia! E com duas edições diárias, uma matutina e outra vespertina!

Antes de se embrenhar na tal “viagem perigosa pelo submundo japonês” conforme promete a capa, o livro já é fascinante por mostrar os bastidores desses jornais nipônicos durante os anos 1990 e 2000. São redações perpetuamente cobertas por névoa de cigarros, um rígido sistema de hierarquia entre repórteres novatos e veteranos, uma sala de descanso cheia de revistas pornográficas e até um banheiro com ducha para as jornadas de 80 horas semanais.

O autor aborda de forma madura e informativa a indústria do sexo, prostituição e fantasia no Japão, deixando de lado a postura tão comum no ocidente de apenas torcer o nariz para as doideras dos japoneses e trazer explicações culturais e até legislativas. Adelstein tem um precioso olhar para detalhes, uma boa dose de ironia e está em uma posição privilegiada para captar tais detalhes. Japonês o bastante para enxergar o país real, estrangeiro o bastante para se surpreender com as coisas. E o autor não se faz de coitado em nenhum momento, mesmo quando se responsabiliza pelo quanto algumas de suas escolhas custaram a outros.

Mas talvez o que mais tenha gostado de Tóquio Proibida seja como o livro se desenvolve e transforma as expectativas do leitor. Claro que existem trechos que mais parecem Versão Japonesa de filme do Scorsese – completo com vilão yakuza que alimenta aos cães os corpos de desafetos –, mas a obra tem momentos de humor legítimo, crítica social, intriga política, tensão e medo. Mais do que a história, acompanhamos as mudanças no próprio Adelstein, que se embrutece, perde idealismos e companheiros queridos depois de mais de uma década dançando com o Diabo.

Tradução sem percalços. Agradeço aos comparsas de trabalho por terem me dado o livro de aniversário.

gostei: história e autor se desenvolvem; boa tradução; vai do engraçado ao tenso; e mais coisa demais pra caber aqui

não gostei: sem reclamações

idioma: português editora: companhia das letras ISBN: 9788535918472

Crônica: Deus e o Diabo nos trens da CPTM

10/09/2011

Passageiros aguardam trem para Guaianazes (Zona Leste de São Paulo - linha 11 coral - expresso leste) em plataforma lotada ao final do dia na Estação da Luz, São Paulo - SP

[People waiting for the urban train to Guaianazes, district of Sao Paulo city, at Luz Station downtown]Imagem: CC Fernando Stankuns

Mais do que uma forma de curtir calor humano e conhecer gente bonita, frequentar conduções lotadas é um dos aspectos mais românticos da vida proletária. E poucas são mais lotadas que os vagões da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, carinhosamente conhecida por CPTM.

Foi lá que eu encontrei, no mesmo dia, Deus e o Diabo.

Deus foi pela manhã. Quando anos atrás dei aulas em Osasco – e descobri que é chamada Cidade de Oz entre os moradores – me acostumei quando pentecostais armados com instrumentos musicais entravam nos trens lotados para pregar. Um paradoxo, claro, já que um trem lotado da CPTM talvez seja o pior lugar possível para se contemplar a beleza da criação de Deus.

Mesmo se tornando mais raros pela fiscalização, naquele dia um conseguiu escapulir para dentro de um trem para poder cantar sobre o Senhor a desinteressados. E obviamente esse era um dia particularmente lotado devido a uma falha técnica e só mesmo vontade divina para explicar como aquele senhor conseguia tocar um violão e cantar desafinado do jeito que o trem tinha cada centímetro cúbico preenchido com carne humana enlatada.

Jorrei pra fora do trem na minha estação e segui meu dia de proletário honesto, o incidente esquecido em minha cabeça. Até que eu me recordei dele na volta, de noite, quando eu encontrei o Diabo.

Assim que a luz do trem despontou na escuridão da noturna, a voz da anunciante relatou na estação: "o próximo trem com destino à Estação Barra Funda tem oito carros". Traduzindo para os neófitos em CPTM, a frase significa "se espremam aí que esse tem metade do tamanho normal".

Entrei na lata, cheia, mas um pouco menos do que na ida. E logo meus ouvidos foram agraciados com o doce som do funk de periferia. Vinha de um grupo de garotos portando latinhas de cevada em mãos e animados apenas como os garotos conseguem ficar quando estão indo pra balada.

Agora, o funk brasileiro não é exatamente conhecido por sua elegância, mas por vezes surge uma obra que consegue se destacar. Aquele funk era uma dessas. O refrão da música consistia na moça falar repetidamente, eu juro pra vocês, "me arromba".

Repita "me arromba" em voz alta de oito a dez vezes, eu espero. Pronto? Independente do ritmo, você teve uma boa ideia da experiência sonora que a música me proporcionou.

Não pude deixar de imaginar o que aconteceria se Deus e o Diabo entrassem juntos no mesmo vagão. Será que um deles sairia? Será que haveria uma épica batalha musical representando a batalha maior pelas almas humanas? Haveria um vencedor preconizando o que ocorreria no final dos tempos?

Seja lá o que acontecesse, azar de quem só quer chegar sossegado em casa pra repetir tudo no dia seguinte.

Pálido Ponto Azul

09/08/2011

Sempre vale a pena lembrar.

Assassin’s Creed: Renascença – de Oliver Bowden

06/08/2011

Resenha da obra abaixo publicada originalmente no UOL Entretenimento, mas trazida à Taverna para degustação dos tão ilustres frequentadores.

AssassinsCreedRenascenca

“Assassin’s Creed – Renascença” é a adaptação literária de “Assassin’s Creed 2″, jogo para PC, Xbox 360 e PlayStation 3 lançado em 2009. A história acompanha a trajetória do jovem Ezio Auditore em busca de vingança. Depois que sua família é traída na Itália do final do século 15, ele descobre fazer parte de um antigo grupo de assassinos envolvido em uma conspiração pela dominação global contra a Ordem dos Templários.

É sempre difícil converter a história de uma mídia a outra, e esse problema fica ainda maior quando uma delas é interativa, como os videogames. Os fãs têm a expectativa de que a história seja replicada de acordo com o original, mas, ironicamente, a grande fidelidade talvez seja um problema de “Assassin’s Creed – Renascença”.

É pouco dizer que a obra replica à risca a narrativa do game. Até os tutoriais – que ensinam os comandos ao jogador – são descritos. Como quando Ezio aprende a roubar em uma encenação num bordel ou como frequentemente visita Leonardo da Vinci para melhorar suas armas ou vai até a cidade comprar um kit de primeiros socorros.

Diferenças narrativas existem, mas são em grande parte mudanças nos nomes de personagens coadjuvantes ou detalhes que não impactam no enredo. A maior ausência são os acontecimentos em 2012 do game seguindo o descendente de Ezio, Desmond, sobre o desdobramento da batalha entre Assassinos e Templários. A história do livro ocorre toda no passado.

“Assassin’s Creed 2″ é um jogo com direção de arte impecável e as ricas cidades mercantes da Itália renascentista são muito bem retratadas, seja na arquitetura, seja nas armaduras adornadas de soldados e mercenários. A adaptação literária, no entanto, adota um tom direto e seco, que lembra mais um passo-a-passo do game do que um romance.

Muitas das melhores novelizações de videogames ou filmes são justamente aquelas que não copiam palavra a palavra do original, mas tomam liberdades. Como os romances de “Star Wars”, que trazem personagens que nunca apareceram na saga cinematográfica criando o universo expandido, assim como a morte de protagonistas dos longas. A tradução de “Assassins Creed Renascença” é sólida em grande parte, mas há momentos raros nos quais ela escorrega em interpretações literais que geram sentenças sem sentido.

“Assassins Creed – Renascença” tem seus méritos, mantém muito do mistério e ação da trama original, assim como os personagens marcantes, se ao menos em um estilo um pouco destilado. Uma obra que pode atrair quem aprecia uma narrativa muito direta ou o entusiasta inveterado da série que não consegue aguardar pela conclusão da saga de Ezio no jogo “Assassin’s Creed Revelations”, com previsão de lançamento em novembro. Para o resto, quem sabe valha mais a pena revisitar a história pelos games mesmo.

gostei: lembrou como o jogo é bom

não gostei: tradução literal; tom descritivo; fidelidade canina ao original

idioma: português editora: galera record ISBN: 9788501091338

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